Quando criança/adolescente, por
causa de minha formação religiosa, acreditava piamente que o altíssimo
observava cada passo meu, cada ato, cada ida ao banheiro. Pelo menos era assim
que me ensinaram. Garoto influenciável, ou ansioso para ser aceito na
comunidade católica, para mim, o ser supremo a tudo observava.
Ao contrário disso me angustiar,
fazer e pensar tudo na vida como se alguém estivesse em meu cangote me dava
uma estranha sensação de aprovação, desaprovação.
E funcionava, pois quando fazia as
coisas "do bem", ficava satisfeito pois o cara que mandava em tudo
balançava a cabeça em aprovação. Quando fazia algo "errado", podia
senti-lo desaprovando meus atos. Atos esses geralmente ligados a coisas que
a pré-dolescentes fazem na intimidade.
Porém, no caso da desaprovação, sentia uma bela vantagem.
Desaprovação pra mim estava literalmente ligado ao chinelo da minha mãe ou a cinta de meu pai, mas com "o homem" era diferente. Quando fazia algo que, segundo a igreja, não agradava o manda-chuva celestial, nada acontecia. Não apareciam chinelos das nuvens, raios e trovões, nem cintas brotavam debaixo da terra para me dar uma sova. Nenhum sinal do castigo divino. Talvez quando eu morresse, mas bastava eu me confessar que estava tudo certo.
Desaprovação pra mim estava literalmente ligado ao chinelo da minha mãe ou a cinta de meu pai, mas com "o homem" era diferente. Quando fazia algo que, segundo a igreja, não agradava o manda-chuva celestial, nada acontecia. Não apareciam chinelos das nuvens, raios e trovões, nem cintas brotavam debaixo da terra para me dar uma sova. Nenhum sinal do castigo divino. Talvez quando eu morresse, mas bastava eu me confessar que estava tudo certo.
Então deus foi permeando minha
formação e sua aprovação/desaprovação seguiram junto comigo.
(Confesso, no entanto, que durante um
bom tempo, reneguei a masturbação, achando que até para deus aquilo era demais.
Durou pouco. Logo vi que os prazeres da carne eram mais fortes que minha
convicção católica.)
O seriado americano Mozart
in the Jungle, (traduzido pessimamente aqui
no Brasil como Sinfonia Insana), trata de um jovem maestro assumindo a
orquestra de Nova York e uma tocadora de oboé que sonha em participar da
orquestra. Em um dos episódios, a orquestra está viajando para o México, terra
natal do maestro, interpretado pelo excelente Gael García Bernal. Eis que sua
tocadora de oboé, interpretada pela linda e competente Lola Kirke, que
também estava servindo de secretária do maestro, chega junto dele, ainda no
aeroporto, com uma imensa lista de compromissos sociais que deveria
cumprir: jantar com o prefeito, almoço com o secretário da cultura, entrevista
para o jornal da maior emissora do país. Eis que o maestro pergunta. "Você sabe
como fazer deus dar risada?", ao que ela responde perplexa:
"Como?". "Assim", responde ele segurando sua mão, saindo correndo
em meio a confusão do aeroporto e pegando o primeiro ônibus na rua. O maestro
então, desprezando todos os compromissos sociais, vai até a cidadezinha onde
nasceu e encontra com sua avó de criação, com seu mentor e com jovens músicos,
tudo isso junto com sua assistente, par romântico, a tiracolo.
Até eu, que não sou bobo nem nada, desprezaria
os compromissos sociais para fugir com Lola Kirke, mas isso não vem ao caso agora.
O caso é que essa expressão "fazer deus dar risada" me ocorria muito na
adolescência.
Quando, inconscientemente, descobri que
produzir o riso nos outros poderia ser uma alavanca para me destacar socialmente,
aperfeiçoei-me então a essa arte. Fazer rir tornou-se tamanha obsessão que me perguntava
se conseguiria, assim como nos atos de aprovação/desaprovação, surpreender o todo
poderoso e fazê-lo dar uma celestial gargalhada.
Pegá-lo de surpresa, dar-lhe um susto,
levantar suas sobrancelhas, enfim, fazê-lo recostar-se em sua poltrona de onde tudo
via e ter um momento de regozijo, afinal, o poderoso tinha, (e tem), muitas coisas
para se preocupar.
Aqui, a receita e o manual estão nas entrelinhas,
nos subtextos, na ironia e na revolta. Deus já não tem letra maiúscula e nem está
mais em um trono observando cada ser humano como se fosse único.
Por mais contraditório que seja, talvez não acredite
mais em deus, mas minha vontade de fazê-lo chorar de rir ainda persiste...Ainda bem.
E pra quem se interessou pelo seriado, (provavelmente bem mais interessante que o texto), eis o link para uma bisoiada!
https://www.youtube.com/watch?v=QixpBQcGAqc

Muito bom Dj!! Boa sorte em todos os teus projetos!! Até breve!!
ResponderExcluirObrigado Querida Ivana!
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