sábado, 9 de abril de 2016

PAM PAM PAM PAM PAM PAAAAAM PAM!



Mussum, Didi, Dedé e Zacarias, os Trapalhões
Cresci com os Trapalhões.
Em minha infância, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias foram minhas primeiras referências de humor, além de Jerry Lewis, Jô Soares e Chico Anysio. Os Trapalhões foram meus primeiros soldados contra a igreja católica e a missa. A missa era a coisa mais odiosamente chata da semana. Meu domingo era um eterno conflito. Ansiava para que chegasse logo, pois a noite, as sete horas, começava o tão esperado programa Os Trapalhões.
Assistir aos Trapalhões era se deleitar com o máximo de politicamente incorreto, mesmo sem saber que aquilo era politicamente incorreto.
Aquilo era uma catarse de humor. Noventa por cento das piadas eu, criança de 8 anos, não conseguia entender. Não concebia aquela eterna fixação que o quarteto tinha pelo "bicho bom",  referindo-se as mulheres. Não entendia porque um par de pernas atraia tanto os olhares dos meus ídolos. Não entendia porque era um perjúrio tão grande chamar o colega de afeminado. Não queria nem entender como os tão temerosos pais caretas daquela geração entregavam seus amados filhos a um malandro, um alcoolotra, um gay e um fortão. Não sei, talvez os pais pensassem que eram mais palhaços do que corruptores de criança, talvez não vissem esses estereótipos encarnados em pessoas, mas palhaços, (no sentido mais belo da palavra, que, em minha opinião de merda e encurtando bastante a definição, é aquele que encanta), que nem brincavam com os estereótipos, (pois não precisam), o que realmente importava era o história, o jogo e suas consequencias. Um ambiente onde todos queriam enganar a todos e sempre se safava o mais esperto. Poder-se-ia-se perguntar se os ditos cujos quarteto do capeta estaria ensinando as crianças que o que é bom é ser esperto, mas o problema, (ou a solução), era que as vezes até o mais esperto se dava mal.
Rebuscando no canto da memória lembro-me de várias cenas, entre elas, uma de metavídeo, (um vídeo onde se fala do próprio vídeo). No caso, os quatro abriram o quadro, (em um fundo branco, isso é importante), com Didi cumprimentando o público com seu popular Ô da Poltrona! Em seguida de um convite para bater um papo. Segundo Didi, ele queria revelar que as piadas eram escritas por outras pessoas.
Em seguida abria-se um painel por trás deles onde uns cinco ou seis caras estavam teclando rapidamente, cada um em sua máquina de escrever.
Na época eu imagina que aquilo era real, e de fato os escritores estavam trabalhando naquele fundo branco (?)
Hoje me espanto por justamente não ter-me espantando com essas duas informações incríveis: Todas aquelas maravilhosas situações cômicas eram escritas, (não saiam de improviso), e, por terceiros. Como assim? Alguém que não eram eles, escrevia o que eles iam dizer? Acho que na época não conseguia fazer aquela associação.
Para mim eram só os caras que datilografavam.
Mas daí Didi, enquanto os escritores continuam a bater máquina, (incansáveis, incansáveis, pareciam máquinas de ideias. Até hoje acho absurdo como esses escritores escrevem nessa rapidez e quantidade), Didi propõe uma vingança. Chega para os "roteiristas", (que param o trabalho e cumprimentam o quarteto como se tivessem se encontrado por acaso), e comenta que todas as situações são escritas por eles, então agora, eles, os Trapalhões, escreveriam o roteiro para que os roteiristas interpretassem.
Seguem a cena vestindo os roteiristas com perucas e roupas esdrúxulas, que tentam ler um diálogo qualquer, seguidas de uma série de baldes d´água, fumaça de extintores e muita torta na cara.
Eu, de fato, não entendia, mais me encantava aquele quarteto tão divertido. Era como se fossem quatros tios.
O máximo da empolgação era vê-los no cinema. Sessões insuportavelmente lotadas, gente sentada no corredor, nas laterais, gente em pé. Era uma zona. Geralmente o filme ficava passando direto, você entrava no cinema e assistia o filme, não do começo, mas do ponto que conseguisse entrar, em seguida, quando acabava, o filme começava de novo e você assistia até o ponto em que tinha conseguido entrar na sessão. Não fazia o menor sentido, mas era assim.
Um dos primeiros filmes que me lembro era Bonga o Vagabundo, interpretado pelo então jovem ator Renato Aragão, que também imortalizou o personagem Didi. No filme não me lembro de quase nada,e evito vê-lo novamente para não quebrar a Regra dos Quinze Anos.
Renato Aragão, o Didi, interpretando Bonga, o vagabundo
(A Regra dos Quinze anos diz para não assistirmos, quando adulto, um filme que gostamos demais e vimos antes dos quinze anos, com o perigo de destruir todo o encantamento que nos impactou naquele momento. (Já assistiu ao Feitiço de Áquila novamente? Não o faça.)  São poucos os filmes que sobrevivem a Regra dos Quinze anos.)
Como dizia, do filme, lembro-me muito pouco, apenas de uma cena, que me fez, literalmente, urinar nas calças, onde Bonga, como diz o nome, um vagabundo, entrava em mil e uma confusões, como diria o narrador da sessão da tarde. Perseguido por vários bandidos, Bonga corre até subir em um enorme tobogã, daqueles coloridos, com várias pistas, uma ao lado das outras,  onde as pessoas escorregam sentadas em cima de um saco, de estopa, geralmente. Bonga, para fugir de seus captores, senta em cima do saco e escorrega se achando a pessoa mais esperta do mundo. Porém, para seu desespero, percebe que os bandidos o estão esperando no final do escorregador, armados. A imagem corta para o rosto de Bonga que está com o rosto paralisado de medo, no entanto sem fazer nenhuma careta, apenas medo. Muito medo.
Seu medo é tamanho que consegue parar sua descida e, incrivelmente, escorregar ao contrário, voltando para a base do escorregador, para o desespero dos seus captores.
Naquela época eu não imaginava qual estranha energia podia fazer um vagabundo vencer a força da própria gravidade, nem me importava muito. Talvez, não sei, o medo tenha agido em seu sistema digestivo e feito com que forças o impulsionassem para cima, num jorro de vapor e gases. Mas o que realmente importava era a pegadinha. Aquela coisa que surpreendeu a criança. Aquela coisa atitude imprevisível, tão fora do comum das situações da maioria das crianças, (pelo menos da minha).
Eu queria ter um medo assim. Um medo que não me paralisasse, mas que me fizesse fazer coisas além da razão, inusitadas, enfim, coisas que, (no universo daquela criança), espantassem até o altíssimo.
Naquele momento, creio que Bonga conseguiu fazer deus dar risada.
E aqui entre nós, acho que ele preferia estar assistindo aos Trapalhões, do que sendo cultuado naquela missa chata.

Nota: Não resisti e assisti a cena do tobogã novamente..., devia ter ficado com a memória da criança... 

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