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| Mussum, Didi, Dedé e Zacarias, os Trapalhões |
Cresci com os Trapalhões.
Em minha infância, Didi, Dedé, Mussum
e Zacarias foram minhas primeiras referências de humor, além de Jerry Lewis, Jô
Soares e Chico Anysio. Os Trapalhões foram meus primeiros soldados contra a
igreja católica e a missa. A missa era a coisa mais odiosamente chata da
semana. Meu domingo era um eterno conflito. Ansiava para que chegasse logo,
pois a noite, as sete horas, começava o tão esperado programa Os Trapalhões.
Assistir aos Trapalhões era se
deleitar com o máximo de politicamente incorreto, mesmo sem saber que aquilo era
politicamente incorreto.
Aquilo era uma catarse de humor.
Noventa por cento das piadas eu, criança de 8 anos, não conseguia entender. Não
concebia aquela eterna fixação que o quarteto tinha pelo "bicho bom", referindo-se as mulheres. Não entendia porque
um par de pernas atraia tanto os olhares dos meus ídolos. Não entendia porque
era um perjúrio tão grande chamar o colega de afeminado. Não queria nem
entender como os tão temerosos pais caretas daquela geração entregavam seus
amados filhos a um malandro, um alcoolotra, um gay e um fortão. Não sei, talvez
os pais pensassem que eram mais palhaços do que corruptores de criança, talvez
não vissem esses estereótipos encarnados em pessoas, mas palhaços, (no sentido
mais belo da palavra, que, em minha opinião de merda e encurtando bastante a
definição, é aquele que encanta), que nem brincavam com os estereótipos, (pois
não precisam), o que realmente importava era o história, o jogo e suas
consequencias. Um ambiente onde todos queriam enganar a todos e sempre se
safava o mais esperto. Poder-se-ia-se perguntar se os ditos cujos quarteto do
capeta estaria ensinando as crianças que o que é bom é ser esperto, mas o
problema, (ou a solução), era que as vezes até o mais esperto se dava mal.
Rebuscando no canto da memória
lembro-me de várias cenas, entre elas, uma de metavídeo, (um vídeo onde se fala
do próprio vídeo). No caso, os quatro abriram o quadro, (em um fundo branco,
isso é importante), com Didi cumprimentando o público com seu popular Ô da
Poltrona! Em seguida de um convite para bater um papo. Segundo Didi, ele queria
revelar que as piadas eram escritas por outras pessoas.
Em seguida abria-se um painel por trás
deles onde uns cinco ou seis caras estavam teclando rapidamente, cada um em sua
máquina de escrever.
Na época eu imagina que aquilo era
real, e de fato os escritores estavam trabalhando naquele fundo branco (?)
Hoje me espanto por justamente não
ter-me espantando com essas duas informações incríveis: Todas aquelas maravilhosas
situações cômicas eram escritas, (não saiam de improviso), e, por terceiros.
Como assim? Alguém que não eram eles, escrevia o que eles iam dizer? Acho que
na época não conseguia fazer aquela associação.
Para mim eram só os caras que datilografavam.
Mas daí Didi, enquanto os escritores
continuam a bater máquina, (incansáveis, incansáveis, pareciam máquinas de
ideias. Até hoje acho absurdo como esses escritores escrevem nessa rapidez e
quantidade), Didi propõe uma vingança. Chega para os "roteiristas", (que
param o trabalho e cumprimentam o quarteto como se tivessem se encontrado por acaso),
e comenta que todas as situações são escritas por eles, então agora, eles, os Trapalhões,
escreveriam o roteiro para que os roteiristas interpretassem.
Seguem a cena vestindo os roteiristas
com perucas e roupas esdrúxulas, que tentam ler um diálogo qualquer, seguidas de
uma série de baldes d´água, fumaça de extintores e muita torta na cara.
Eu, de fato, não entendia, mais me encantava
aquele quarteto tão divertido. Era como se fossem quatros tios.
O máximo da empolgação era vê-los no cinema.
Sessões insuportavelmente lotadas, gente sentada no corredor, nas laterais, gente
em pé. Era uma zona. Geralmente o filme ficava passando direto, você entrava no
cinema e assistia o filme, não do começo, mas do ponto que conseguisse entrar, em
seguida, quando acabava, o filme começava de novo e você assistia até o ponto em
que tinha conseguido entrar na sessão. Não fazia o menor sentido, mas era assim.
Um dos primeiros filmes que me lembro
era Bonga o Vagabundo, interpretado pelo então jovem ator Renato Aragão, que também
imortalizou o personagem Didi. No filme não me lembro de quase nada,e evito
vê-lo novamente para não quebrar a Regra dos Quinze Anos.
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| Renato Aragão, o Didi, interpretando Bonga, o vagabundo |
(A Regra dos Quinze anos diz para não
assistirmos, quando adulto, um filme que gostamos demais e vimos antes dos
quinze anos, com o perigo de destruir todo o encantamento que nos impactou
naquele momento. (Já assistiu ao Feitiço de Áquila novamente? Não o faça.) São poucos os filmes que sobrevivem a Regra
dos Quinze anos.)
Como dizia, do filme, lembro-me muito
pouco, apenas de uma cena, que me fez, literalmente, urinar nas calças, onde
Bonga, como diz o nome, um vagabundo, entrava em mil e uma confusões, como diria
o narrador da sessão da tarde. Perseguido por vários bandidos, Bonga corre até
subir em um enorme tobogã, daqueles coloridos, com várias pistas, uma ao lado
das outras, onde as pessoas escorregam
sentadas em cima de um saco, de estopa, geralmente. Bonga, para fugir de seus
captores, senta em cima do saco e escorrega se achando a pessoa mais esperta do
mundo. Porém, para seu desespero, percebe que os bandidos o estão esperando no
final do escorregador, armados. A imagem corta para o rosto de Bonga que está
com o rosto paralisado de medo, no entanto sem fazer nenhuma careta, apenas
medo. Muito medo.
Seu medo é tamanho que consegue parar
sua descida e, incrivelmente, escorregar ao contrário, voltando para a base do
escorregador, para o desespero dos seus captores.
Naquela época eu não imaginava qual
estranha energia podia fazer um vagabundo vencer a força da própria gravidade,
nem me importava muito. Talvez, não sei, o medo tenha agido em seu sistema
digestivo e feito com que forças o impulsionassem para cima, num jorro de vapor
e gases. Mas o que realmente importava era a pegadinha. Aquela coisa que surpreendeu
a criança. Aquela coisa atitude imprevisível, tão fora do comum das situações
da maioria das crianças, (pelo menos da minha).
Eu queria ter um medo assim. Um medo
que não me paralisasse, mas que me fizesse fazer coisas além da razão,
inusitadas, enfim, coisas que, (no universo daquela criança), espantassem até o
altíssimo.
Naquele momento, creio que Bonga
conseguiu fazer deus dar risada.
E aqui entre nós, acho que ele preferia
estar assistindo aos Trapalhões, do que sendo cultuado naquela missa chata.
Nota: Não resisti e assisti a cena do tobogã novamente..., devia ter ficado com a memória da criança...


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