segunda-feira, 11 de abril de 2016

O roteirista e a selva do mundo corporativo

Drew Barrymore e E.T. o Extraterrestre


Posso me considerar roteirista. Medíocre, provavelmente. Mas, creio eu, se as pessoas me contratam e  pagam um valor por minhas linhas, que saem em formato de roteiro, posso me considerar tal. 
Sempre achei absurdo como os roteiristas, (pelo menos os que tenho contato), escrevem, principalmente no que tange a qualidade e, principalmente, quantidade, sim, quantidade. Eu me mato para conseguir escrever um simples parágrafo, que demora para sair da cabeça, não sabendo, muitas vezes, para onde vai e de onde vem a ideia que quero colocar no papel, ao passo que no mesmo tempo meus colegas me apontam laudas e mais laudas de texto. Nelson Rodrigues, (que não era roteirista, mas dramaturgo), escreveu clássicos em noites e madrugadas! Sentava-se a sua máquina de datilografar, (alguém sabe o que é isso?), e não saia de lá enquanto a peça não estivesse pronta, geralmente na manha do dia seguinte.
Já tentou criar usando uma máquina de datilografia? Eu já e achei praticamente impossível. Minhas primeiras criações sempre foram feitas a letra de mão, com meu garrancho, "batendo" depois tudo a máquina. Pra mim, criar na máquina de escrever , (outro nome para a máquina de datilografia), é quase um desafio herculoso. São tantas opções de palavras, tantas formas de frase, tantas correções, que a inspiração já te abandona no meio do caminho. Quando se escolhe uma palavra, por exemplo, logo vem a mente outras três, que parecem traduzir melhor aquilo que você está pensando. É necessário apagar a primeira para colocar a segunda. E assim se faz com frases, verbos, sujeitos, predicados. É extensa a correção durante a própria escrita. Esse trabalho é insuportável numa máquina de escrever. Mas também é insuportável ficar transcrevendo tudo o que foi feito por extenso. Sem dúvida, trabalhar com um computador foi a salvação da lavoura, pelo menos para mim. Digito rapidamente e consigo mudar a ordem das frases e/ou palavras sem fazer muito esforço.  
Mas mesmo assim, isso não diminui minha admiração pelos colegas que conseguem ter ideias e escrever rapidamente. Será que meus colegas tem um dom divino? Uma força de vontade sobrenatural? Uma inspiração energética de impulsão a escrita?
Ou sou eu que tenho muita preguiça?
Provavelmente a segunda opção. Mas meu apreço pela categoria é enorme. Principalmente os que escrevem para o mundo corporativo.
Porque, convenhamos, o mundo corporativo não é pra qualquer um. Aquilo sim é uma selva onde instinto e razão oferecem o melhor de si para um único motivo: sobreviver. Se você bobear, se mostrar desatento, se ficar devaneando feito Bambi na floresta, você é civilizadamente devorado. 
E as ideias precisam sair rápidas, politicamente corretas, e mesmo assim, incrivelmente criativas, (do ponto de vista do cliente, claro). Isso é o mínimo que se espera de todos os colaboradores, do roteirista então, é tudo isso junto ao mesmo tempo ao quadrado.
Em um encontro com o cliente para o qual fui convocado a ir, a vendedora, minha colega de trabalho, já foi me adiantado no avião, "ideias bem criativas para o cliente na reunião, heim! " Todo o peso da minha responsabilidade que eu até então não tinha me tocado caíram em minha cabeça naquele momento. Como assim "ideias"? Como assim "bem criativas"? E tudo no plural? E ainda, na frente do cliente??? Pra mim já é difícil ter uma ideia, quanto mais criativa. Várias ainda, é pedir demais.
Mas é isso é o mínimo que se espera de um roteirista. Esse é mundo corporativo! Ideias cada vez mais personalizadas, em um prazo mais rápido possível, por um preço cada  vez menor. Perdeu morreu, ganhou, sobrevive-se.
Nas reuniões corporativas eu geralmente me embaralho todo com muitas ideias. Não sei quem falou o que, os juízos de valores são diversos e a os egos e jogo de poder imperam sempre no ar. Por isso, reunião de briefing para mim geralmente beira o caos.
Para quem não sabe, reunião de briefing é uma das ferramentas do mundo corporativo, onde o cara que te contrata diz o que precisa e você, como roteirista, tem a obrigação de colocar no papel, em forma de roteiro.
Na reunião de briefing o roteirista é aquele que não é tão importante, mas é o bicho mais esquisito. Não se vêem muitos roteiristas por aí no mundo corporativo, (a não ser, claro, nas empresas ligadas a comunicação), mas no restante, roteirista é um negócio raro de se achar.
Em  certa ocasião, numa reunião de uma empresa que estava contratando meus serviços de roteirista, o diretor, apresentou-se a frente dos "colaboradores"...
Aqui entre nós, (e que meus contratantes não vejam), mas "Colaborador" eu acho um termo um pouco estranho. Dá-se a impressão que você está ali querendo ajudar em alguma coisa, quando na verdade você está ali, trabalhando oito horas por dia, cinco dias da semana, por causa de dinheiro. Sim, dinheiro. Duvida? Então vamos ver se a empresa que o contrata anuncia que não mais pagara seu salário. Quantas pessoas continuariam a "colaborar" com a empresa nessa nova condição?
Pois bem,  o diretor da empresa iniciou os trabalhos atribuindo a importância de um evento que ia ser realizado e foi apresentando os setores das empresas que estavam participando. Todos os setores tinham, pelo menos, três pessoas. Acho que até a tia do cafézinho estava envolvida, tamanho a importância do evento.
Na verdade, e o trabalhador por conta própria sabe bem o que é isso, na medida em que eu fui tomando consciência do tamanho do evento, mais baixo eu achava que tinha cobrado meus serviços.
Mas nessa reunião, que estava meio estilo sala de aula, com o professor na frente e os alunos voltados em seu direção, os departamentos estavam sendo apresentados e quem estava na frente nem se dava ao trabalho de olhar para trás, (entretidos que estavam em seus celulares e notebooks, com tarefas sempre urgentes e inadiáveis), até o momento em que anunciaram o "roteirista".
Sempre acho que bate aquele silêncio de filme americano quando anunciam o "roteirista" .
Sabe aquele momento em que o mocinho entra no bar e acontece um silêncio monstruoso?
Se  o roteirista for terceirizado, (o que geralmente é o meu caso), a curiosidade aumenta ao nível de encontro com alienígena.
Pois na dita reunião, quando anunciaram o "roteirista" e eu levantei a mão para indicar que era eu, todos deram uma paradinha no que estavam fazendo pra ver essa peça rara.
"Então esse aí é o cara que escreve..."
"Se fosse bom não era terceirizado."
"Como é que esse cara vive?"
"Roteirista? Uau! Que exótico. Mas deve ganhar tão pouco. Daí eu vou ter que pagar as coisas. E se eu quiser viajar e ele não tiver dinheiro? Eu vou sozinha ou pago pra ele? Será que ele tira férias? Será que eu vou ter que sustentar vagabundo? Deus me livre. Vou voltar pro whats."
"Se fosse importante era diretor, e chegava atrasado".
Que, aliás, foi exatamente o que aconteceu naquela reunião. A diretora, uma mocinha muito jovem, oriental, pequenina, no entanto, emanando poder,  chegou escoltada por um importante nome da empresa, em um estilo totalmente diferente do dá maioria, (inclusive eu, que estava vestido como  um arremedo de executivo e descolado, com calça social, camisa fora de moda há uns cinco anos, sapatilha, e tudo com marcas de terceira categoria, tipo "Surfe", "SunShine", "Dahora").
O roteirista corporativo, geralmente, é só um bicho esquisito..., e extremamente invejoso e amargurado, como aliás, vocês notaram no parágrafo acima.
Minha mãe, em sua santa simplicidade que eu amo, até hoje não entende que o ser escritor. Eu desisti de tentar explicar. Lembro-me quando ela foi assistir a um espetáculo que tinha escrito e dirigido. Já em casa perguntei se ela havia gostado, ela respondeu-me que não tinha muito porque eu não tinha "aparecido".
Retruquei  dizendo que justamente havia escrito e dirigido o espetáculo, (julgando isso ser mais importante do que "aparecer", que no caso era atuar.
- Escreveu o que?
- Escrevi a história, escrevi o que os atores disseram.
- Não senhor. O que eles disseram saíram da boca deles. E dirigiu o que?
-Dirigi a peça, os atores. Eu que falava vai prá cá, vai prá lá, fala mais triste, mais alegre, (podia dizer que essa deve ser a pior simplificação do ofício de diretor que se fez na vida, mas como sei que não tenho capacidade, (e isso não é ironia), para ser o pior, creio que devem existir definições bem menos elegantes e estereotipadas).
Desisti de tentar explicar pra ela.
Continuo bicho raro no mundo corporativo.
E continuo escrevendo, menos do que gostaria, mas continuo.    

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