sexta-feira, 10 de junho de 2016

Teatrando


Montagem de Taís Mello
Outro dia estava na casa de uma amiga e ela me apresentou seu filho que estava estudando para ser ator.

Creio que quem convive com teatro sabe que não é uma profissão fácil. Então eu, buscando ainda meu lugar ao sol, tentei saber do filho de minha amiga onde ele gostaria de exercer sua profissão, se na televisão, no teatro, no cinema, imaginando o que, em minha tola pretensão, poderia ajudar aquele jovem estudante da arte.

Na verdade não me lembro absolutamente nada do que ele me respondeu, porém, hoje, anos depois do acontecido, me dei conta da extrema apatia que o rapaz parecia ter com relação a profissão.

Como se, para ele, fazer teatro e, (imagine uma coisa que você faz com extremo desdém. Cada um tem o seu. O meu seria ler um livro chato.)

Me imaginei com a idade dele começando a fazer teatro, 18, 19 anos. Não havia aquele desdém, pelo menos, não presenciei nenhum.

Éramos pessoas apaixonadas pelo teatro. Todos de classe média que precisavam pegar no batente, ganhar uma graninha e usar as poucas horas que sobravam para o que de fato importava: Fazer teatro.

Longe de parecer saudosista. Apenas uma descrição da paixão. O teatro era uma paixão. Até mesmo para aqueles que ficavam um tempo e desistiam da brincadeira. (Talvez porque, insuportáveis que éramos, exigíamos a paixão de todos os que estavam envolvidos com a nobre arte. (Não que as outras não sejam nobres).

Fazer teatro não era uma escolha, era um sacrifício. De fato, um sacrifício das noites dormidas, do repouso, do convívio com a família. A família era o palco e naquele amadorismo apaixonado uns ensinávamos os outros. Raramente um diretor aparecia pra enfrentar esses loucos. Muitos dos que enfrentavam, acabaram apaixonando-se também, talvez pelo brilho nos olhos daqueles amadores.

Hoje sou apaixonado pelo teatro?

Claro que não porque não sou besta.

Porque a paixão arde e acaba.

Hoje, do fundo de meu coração, depois de mais de 30 anos de muito suor, lágrimas e muitas risadas, posso dizer que conheço o amor. Amo o teatro. É foda. Amo mesmo.

Assistir teatro, fazer teatro, produzir teatro, é uma das poucas coisas que faz bater forte meu coração.

Dá aquela tremedeira de perna quando se esta dirigindo um elenco.

O suor debaixo de braço quando se lê um texto seu.

E o indiscritivel friozinho na barriga segundos antes de entrar em cena.

Teatro, te amo!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O roteirista e a selva do mundo corporativo

Drew Barrymore e E.T. o Extraterrestre


Posso me considerar roteirista. Medíocre, provavelmente. Mas, creio eu, se as pessoas me contratam e  pagam um valor por minhas linhas, que saem em formato de roteiro, posso me considerar tal. 
Sempre achei absurdo como os roteiristas, (pelo menos os que tenho contato), escrevem, principalmente no que tange a qualidade e, principalmente, quantidade, sim, quantidade. Eu me mato para conseguir escrever um simples parágrafo, que demora para sair da cabeça, não sabendo, muitas vezes, para onde vai e de onde vem a ideia que quero colocar no papel, ao passo que no mesmo tempo meus colegas me apontam laudas e mais laudas de texto. Nelson Rodrigues, (que não era roteirista, mas dramaturgo), escreveu clássicos em noites e madrugadas! Sentava-se a sua máquina de datilografar, (alguém sabe o que é isso?), e não saia de lá enquanto a peça não estivesse pronta, geralmente na manha do dia seguinte.
Já tentou criar usando uma máquina de datilografia? Eu já e achei praticamente impossível. Minhas primeiras criações sempre foram feitas a letra de mão, com meu garrancho, "batendo" depois tudo a máquina. Pra mim, criar na máquina de escrever , (outro nome para a máquina de datilografia), é quase um desafio herculoso. São tantas opções de palavras, tantas formas de frase, tantas correções, que a inspiração já te abandona no meio do caminho. Quando se escolhe uma palavra, por exemplo, logo vem a mente outras três, que parecem traduzir melhor aquilo que você está pensando. É necessário apagar a primeira para colocar a segunda. E assim se faz com frases, verbos, sujeitos, predicados. É extensa a correção durante a própria escrita. Esse trabalho é insuportável numa máquina de escrever. Mas também é insuportável ficar transcrevendo tudo o que foi feito por extenso. Sem dúvida, trabalhar com um computador foi a salvação da lavoura, pelo menos para mim. Digito rapidamente e consigo mudar a ordem das frases e/ou palavras sem fazer muito esforço.  
Mas mesmo assim, isso não diminui minha admiração pelos colegas que conseguem ter ideias e escrever rapidamente. Será que meus colegas tem um dom divino? Uma força de vontade sobrenatural? Uma inspiração energética de impulsão a escrita?
Ou sou eu que tenho muita preguiça?
Provavelmente a segunda opção. Mas meu apreço pela categoria é enorme. Principalmente os que escrevem para o mundo corporativo.
Porque, convenhamos, o mundo corporativo não é pra qualquer um. Aquilo sim é uma selva onde instinto e razão oferecem o melhor de si para um único motivo: sobreviver. Se você bobear, se mostrar desatento, se ficar devaneando feito Bambi na floresta, você é civilizadamente devorado. 
E as ideias precisam sair rápidas, politicamente corretas, e mesmo assim, incrivelmente criativas, (do ponto de vista do cliente, claro). Isso é o mínimo que se espera de todos os colaboradores, do roteirista então, é tudo isso junto ao mesmo tempo ao quadrado.
Em um encontro com o cliente para o qual fui convocado a ir, a vendedora, minha colega de trabalho, já foi me adiantado no avião, "ideias bem criativas para o cliente na reunião, heim! " Todo o peso da minha responsabilidade que eu até então não tinha me tocado caíram em minha cabeça naquele momento. Como assim "ideias"? Como assim "bem criativas"? E tudo no plural? E ainda, na frente do cliente??? Pra mim já é difícil ter uma ideia, quanto mais criativa. Várias ainda, é pedir demais.
Mas é isso é o mínimo que se espera de um roteirista. Esse é mundo corporativo! Ideias cada vez mais personalizadas, em um prazo mais rápido possível, por um preço cada  vez menor. Perdeu morreu, ganhou, sobrevive-se.
Nas reuniões corporativas eu geralmente me embaralho todo com muitas ideias. Não sei quem falou o que, os juízos de valores são diversos e a os egos e jogo de poder imperam sempre no ar. Por isso, reunião de briefing para mim geralmente beira o caos.
Para quem não sabe, reunião de briefing é uma das ferramentas do mundo corporativo, onde o cara que te contrata diz o que precisa e você, como roteirista, tem a obrigação de colocar no papel, em forma de roteiro.
Na reunião de briefing o roteirista é aquele que não é tão importante, mas é o bicho mais esquisito. Não se vêem muitos roteiristas por aí no mundo corporativo, (a não ser, claro, nas empresas ligadas a comunicação), mas no restante, roteirista é um negócio raro de se achar.
Em  certa ocasião, numa reunião de uma empresa que estava contratando meus serviços de roteirista, o diretor, apresentou-se a frente dos "colaboradores"...
Aqui entre nós, (e que meus contratantes não vejam), mas "Colaborador" eu acho um termo um pouco estranho. Dá-se a impressão que você está ali querendo ajudar em alguma coisa, quando na verdade você está ali, trabalhando oito horas por dia, cinco dias da semana, por causa de dinheiro. Sim, dinheiro. Duvida? Então vamos ver se a empresa que o contrata anuncia que não mais pagara seu salário. Quantas pessoas continuariam a "colaborar" com a empresa nessa nova condição?
Pois bem,  o diretor da empresa iniciou os trabalhos atribuindo a importância de um evento que ia ser realizado e foi apresentando os setores das empresas que estavam participando. Todos os setores tinham, pelo menos, três pessoas. Acho que até a tia do cafézinho estava envolvida, tamanho a importância do evento.
Na verdade, e o trabalhador por conta própria sabe bem o que é isso, na medida em que eu fui tomando consciência do tamanho do evento, mais baixo eu achava que tinha cobrado meus serviços.
Mas nessa reunião, que estava meio estilo sala de aula, com o professor na frente e os alunos voltados em seu direção, os departamentos estavam sendo apresentados e quem estava na frente nem se dava ao trabalho de olhar para trás, (entretidos que estavam em seus celulares e notebooks, com tarefas sempre urgentes e inadiáveis), até o momento em que anunciaram o "roteirista".
Sempre acho que bate aquele silêncio de filme americano quando anunciam o "roteirista" .
Sabe aquele momento em que o mocinho entra no bar e acontece um silêncio monstruoso?
Se  o roteirista for terceirizado, (o que geralmente é o meu caso), a curiosidade aumenta ao nível de encontro com alienígena.
Pois na dita reunião, quando anunciaram o "roteirista" e eu levantei a mão para indicar que era eu, todos deram uma paradinha no que estavam fazendo pra ver essa peça rara.
"Então esse aí é o cara que escreve..."
"Se fosse bom não era terceirizado."
"Como é que esse cara vive?"
"Roteirista? Uau! Que exótico. Mas deve ganhar tão pouco. Daí eu vou ter que pagar as coisas. E se eu quiser viajar e ele não tiver dinheiro? Eu vou sozinha ou pago pra ele? Será que ele tira férias? Será que eu vou ter que sustentar vagabundo? Deus me livre. Vou voltar pro whats."
"Se fosse importante era diretor, e chegava atrasado".
Que, aliás, foi exatamente o que aconteceu naquela reunião. A diretora, uma mocinha muito jovem, oriental, pequenina, no entanto, emanando poder,  chegou escoltada por um importante nome da empresa, em um estilo totalmente diferente do dá maioria, (inclusive eu, que estava vestido como  um arremedo de executivo e descolado, com calça social, camisa fora de moda há uns cinco anos, sapatilha, e tudo com marcas de terceira categoria, tipo "Surfe", "SunShine", "Dahora").
O roteirista corporativo, geralmente, é só um bicho esquisito..., e extremamente invejoso e amargurado, como aliás, vocês notaram no parágrafo acima.
Minha mãe, em sua santa simplicidade que eu amo, até hoje não entende que o ser escritor. Eu desisti de tentar explicar. Lembro-me quando ela foi assistir a um espetáculo que tinha escrito e dirigido. Já em casa perguntei se ela havia gostado, ela respondeu-me que não tinha muito porque eu não tinha "aparecido".
Retruquei  dizendo que justamente havia escrito e dirigido o espetáculo, (julgando isso ser mais importante do que "aparecer", que no caso era atuar.
- Escreveu o que?
- Escrevi a história, escrevi o que os atores disseram.
- Não senhor. O que eles disseram saíram da boca deles. E dirigiu o que?
-Dirigi a peça, os atores. Eu que falava vai prá cá, vai prá lá, fala mais triste, mais alegre, (podia dizer que essa deve ser a pior simplificação do ofício de diretor que se fez na vida, mas como sei que não tenho capacidade, (e isso não é ironia), para ser o pior, creio que devem existir definições bem menos elegantes e estereotipadas).
Desisti de tentar explicar pra ela.
Continuo bicho raro no mundo corporativo.
E continuo escrevendo, menos do que gostaria, mas continuo.    

sábado, 9 de abril de 2016

PAM PAM PAM PAM PAM PAAAAAM PAM!



Mussum, Didi, Dedé e Zacarias, os Trapalhões
Cresci com os Trapalhões.
Em minha infância, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias foram minhas primeiras referências de humor, além de Jerry Lewis, Jô Soares e Chico Anysio. Os Trapalhões foram meus primeiros soldados contra a igreja católica e a missa. A missa era a coisa mais odiosamente chata da semana. Meu domingo era um eterno conflito. Ansiava para que chegasse logo, pois a noite, as sete horas, começava o tão esperado programa Os Trapalhões.
Assistir aos Trapalhões era se deleitar com o máximo de politicamente incorreto, mesmo sem saber que aquilo era politicamente incorreto.
Aquilo era uma catarse de humor. Noventa por cento das piadas eu, criança de 8 anos, não conseguia entender. Não concebia aquela eterna fixação que o quarteto tinha pelo "bicho bom",  referindo-se as mulheres. Não entendia porque um par de pernas atraia tanto os olhares dos meus ídolos. Não entendia porque era um perjúrio tão grande chamar o colega de afeminado. Não queria nem entender como os tão temerosos pais caretas daquela geração entregavam seus amados filhos a um malandro, um alcoolotra, um gay e um fortão. Não sei, talvez os pais pensassem que eram mais palhaços do que corruptores de criança, talvez não vissem esses estereótipos encarnados em pessoas, mas palhaços, (no sentido mais belo da palavra, que, em minha opinião de merda e encurtando bastante a definição, é aquele que encanta), que nem brincavam com os estereótipos, (pois não precisam), o que realmente importava era o história, o jogo e suas consequencias. Um ambiente onde todos queriam enganar a todos e sempre se safava o mais esperto. Poder-se-ia-se perguntar se os ditos cujos quarteto do capeta estaria ensinando as crianças que o que é bom é ser esperto, mas o problema, (ou a solução), era que as vezes até o mais esperto se dava mal.
Rebuscando no canto da memória lembro-me de várias cenas, entre elas, uma de metavídeo, (um vídeo onde se fala do próprio vídeo). No caso, os quatro abriram o quadro, (em um fundo branco, isso é importante), com Didi cumprimentando o público com seu popular Ô da Poltrona! Em seguida de um convite para bater um papo. Segundo Didi, ele queria revelar que as piadas eram escritas por outras pessoas.
Em seguida abria-se um painel por trás deles onde uns cinco ou seis caras estavam teclando rapidamente, cada um em sua máquina de escrever.
Na época eu imagina que aquilo era real, e de fato os escritores estavam trabalhando naquele fundo branco (?)
Hoje me espanto por justamente não ter-me espantando com essas duas informações incríveis: Todas aquelas maravilhosas situações cômicas eram escritas, (não saiam de improviso), e, por terceiros. Como assim? Alguém que não eram eles, escrevia o que eles iam dizer? Acho que na época não conseguia fazer aquela associação.
Para mim eram só os caras que datilografavam.
Mas daí Didi, enquanto os escritores continuam a bater máquina, (incansáveis, incansáveis, pareciam máquinas de ideias. Até hoje acho absurdo como esses escritores escrevem nessa rapidez e quantidade), Didi propõe uma vingança. Chega para os "roteiristas", (que param o trabalho e cumprimentam o quarteto como se tivessem se encontrado por acaso), e comenta que todas as situações são escritas por eles, então agora, eles, os Trapalhões, escreveriam o roteiro para que os roteiristas interpretassem.
Seguem a cena vestindo os roteiristas com perucas e roupas esdrúxulas, que tentam ler um diálogo qualquer, seguidas de uma série de baldes d´água, fumaça de extintores e muita torta na cara.
Eu, de fato, não entendia, mais me encantava aquele quarteto tão divertido. Era como se fossem quatros tios.
O máximo da empolgação era vê-los no cinema. Sessões insuportavelmente lotadas, gente sentada no corredor, nas laterais, gente em pé. Era uma zona. Geralmente o filme ficava passando direto, você entrava no cinema e assistia o filme, não do começo, mas do ponto que conseguisse entrar, em seguida, quando acabava, o filme começava de novo e você assistia até o ponto em que tinha conseguido entrar na sessão. Não fazia o menor sentido, mas era assim.
Um dos primeiros filmes que me lembro era Bonga o Vagabundo, interpretado pelo então jovem ator Renato Aragão, que também imortalizou o personagem Didi. No filme não me lembro de quase nada,e evito vê-lo novamente para não quebrar a Regra dos Quinze Anos.
Renato Aragão, o Didi, interpretando Bonga, o vagabundo
(A Regra dos Quinze anos diz para não assistirmos, quando adulto, um filme que gostamos demais e vimos antes dos quinze anos, com o perigo de destruir todo o encantamento que nos impactou naquele momento. (Já assistiu ao Feitiço de Áquila novamente? Não o faça.)  São poucos os filmes que sobrevivem a Regra dos Quinze anos.)
Como dizia, do filme, lembro-me muito pouco, apenas de uma cena, que me fez, literalmente, urinar nas calças, onde Bonga, como diz o nome, um vagabundo, entrava em mil e uma confusões, como diria o narrador da sessão da tarde. Perseguido por vários bandidos, Bonga corre até subir em um enorme tobogã, daqueles coloridos, com várias pistas, uma ao lado das outras,  onde as pessoas escorregam sentadas em cima de um saco, de estopa, geralmente. Bonga, para fugir de seus captores, senta em cima do saco e escorrega se achando a pessoa mais esperta do mundo. Porém, para seu desespero, percebe que os bandidos o estão esperando no final do escorregador, armados. A imagem corta para o rosto de Bonga que está com o rosto paralisado de medo, no entanto sem fazer nenhuma careta, apenas medo. Muito medo.
Seu medo é tamanho que consegue parar sua descida e, incrivelmente, escorregar ao contrário, voltando para a base do escorregador, para o desespero dos seus captores.
Naquela época eu não imaginava qual estranha energia podia fazer um vagabundo vencer a força da própria gravidade, nem me importava muito. Talvez, não sei, o medo tenha agido em seu sistema digestivo e feito com que forças o impulsionassem para cima, num jorro de vapor e gases. Mas o que realmente importava era a pegadinha. Aquela coisa que surpreendeu a criança. Aquela coisa atitude imprevisível, tão fora do comum das situações da maioria das crianças, (pelo menos da minha).
Eu queria ter um medo assim. Um medo que não me paralisasse, mas que me fizesse fazer coisas além da razão, inusitadas, enfim, coisas que, (no universo daquela criança), espantassem até o altíssimo.
Naquele momento, creio que Bonga conseguiu fazer deus dar risada.
E aqui entre nós, acho que ele preferia estar assistindo aos Trapalhões, do que sendo cultuado naquela missa chata.

Nota: Não resisti e assisti a cena do tobogã novamente..., devia ter ficado com a memória da criança... 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Pequenas confissões de um ser humano avesso a coragem



Quando criança/adolescente, por causa de minha formação religiosa, acreditava piamente que o altíssimo observava cada passo meu, cada ato, cada ida ao banheiro. Pelo menos era assim que me ensinaram. Garoto influenciável, ou ansioso para ser aceito na comunidade católica, para mim, o ser supremo a tudo observava.
Ao contrário disso me angustiar, fazer e pensar tudo na vida como se alguém estivesse em meu cangote me dava uma estranha sensação de aprovação, desaprovação.
E funcionava, pois quando fazia as coisas "do bem", ficava satisfeito pois o cara que mandava em tudo balançava a cabeça em aprovação. Quando fazia algo "errado", podia senti-lo desaprovando meus atos. Atos esses geralmente ligados a coisas que a pré-dolescentes fazem na intimidade.
Porém, no caso da desaprovação, sentia uma bela vantagem. 
Desaprovação pra mim estava literalmente ligado ao chinelo da minha mãe ou a cinta de meu pai, mas com "o homem" era diferente. Quando fazia algo que, segundo a igreja, não  agradava o manda-chuva celestial, nada acontecia. Não apareciam chinelos das nuvens, raios e trovões, nem cintas brotavam debaixo da terra para me dar uma sova. Nenhum  sinal do castigo divino. Talvez quando eu morresse, mas bastava eu me confessar que estava tudo certo.
Então deus foi permeando minha formação e sua aprovação/desaprovação seguiram junto comigo.
(Confesso, no entanto, que durante um bom tempo, reneguei a masturbação, achando que até para deus aquilo era demais. Durou pouco. Logo vi que os prazeres da carne eram mais fortes que minha convicção católica.)
O seriado americano Mozart in the Jungle, (traduzido pessimamente aqui no Brasil como Sinfonia Insana), trata de um jovem maestro assumindo a orquestra de Nova York e uma tocadora de oboé que sonha em participar da orquestra. Em um dos episódios, a orquestra está viajando para o México, terra natal do maestro, interpretado pelo excelente Gael García Bernal. Eis que sua tocadora de oboé, interpretada pela linda e competente Lola Kirke, que também estava servindo de secretária do maestro, chega junto dele, ainda no aeroporto, com uma imensa lista de compromissos sociais que deveria cumprir: jantar com o prefeito, almoço com o secretário da cultura, entrevista para o jornal da maior emissora do país. Eis que o maestro pergunta. "Você sabe como fazer deus dar risada?", ao que ela responde perplexa: "Como?". "Assim", responde ele segurando sua mão, saindo correndo em meio a confusão do aeroporto e pegando o primeiro ônibus na rua. O maestro então, desprezando todos os compromissos sociais, vai até a cidadezinha onde nasceu e encontra com sua avó de criação, com seu mentor e com jovens músicos, tudo isso junto com sua assistente, par romântico, a tiracolo.
Até eu, que não sou bobo nem nada, desprezaria os compromissos sociais para fugir com Lola Kirke, mas isso não vem ao caso agora. O caso é que essa expressão "fazer deus dar risada" me ocorria muito na adolescência.
Quando, inconscientemente, descobri que produzir o riso nos outros poderia ser uma alavanca para me destacar socialmente, aperfeiçoei-me então a essa arte. Fazer rir tornou-se tamanha obsessão que me perguntava se conseguiria, assim como nos atos de aprovação/desaprovação, surpreender o todo poderoso e fazê-lo dar uma celestial gargalhada.
Pegá-lo de surpresa, dar-lhe um susto, levantar suas sobrancelhas, enfim, fazê-lo recostar-se em sua poltrona de onde tudo via e ter um momento de regozijo, afinal, o poderoso tinha, (e tem), muitas coisas para se preocupar.
Aqui, a receita e o manual estão nas entrelinhas, nos subtextos, na ironia e na revolta. Deus já não tem letra maiúscula e nem está mais em um trono observando cada ser humano como se fosse único.
Por mais contraditório que seja, talvez não acredite mais em deus, mas minha vontade de fazê-lo chorar de rir ainda persiste...

Ainda bem. 

E pra quem se interessou pelo seriado, (provavelmente bem mais interessante que o texto), eis o link para uma bisoiada!

https://www.youtube.com/watch?v=QixpBQcGAqc