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| Drew Barrymore e E.T. o Extraterrestre |
Posso me considerar roteirista.
Medíocre, provavelmente. Mas, creio eu, se as pessoas me contratam e pagam um valor por minhas linhas, que saem em
formato de roteiro, posso me considerar tal.
Sempre achei absurdo como os
roteiristas, (pelo menos os que tenho contato), escrevem, principalmente no que
tange a qualidade e, principalmente, quantidade,
sim, quantidade. Eu me mato para conseguir escrever um simples parágrafo, que
demora para sair da cabeça, não sabendo, muitas vezes, para onde vai e de onde
vem a ideia que quero colocar no papel, ao passo que no mesmo tempo meus
colegas me apontam laudas e mais laudas de texto. Nelson Rodrigues, (que não
era roteirista, mas dramaturgo), escreveu clássicos em noites e madrugadas!
Sentava-se a sua máquina de datilografar, (alguém sabe o que é isso?), e não
saia de lá enquanto a peça não estivesse pronta, geralmente na manha do dia
seguinte.
Já tentou criar usando uma máquina de
datilografia? Eu já e achei praticamente impossível. Minhas primeiras criações
sempre foram feitas a letra de mão, com meu garrancho, "batendo" depois
tudo a máquina. Pra mim, criar na máquina de escrever , (outro nome para a
máquina de datilografia), é quase um desafio herculoso. São tantas opções de
palavras, tantas formas de frase, tantas correções, que a inspiração já te
abandona no meio do caminho. Quando se escolhe uma palavra, por exemplo, logo
vem a mente outras três, que parecem traduzir melhor aquilo que você está
pensando. É necessário apagar a primeira para colocar a segunda. E assim se faz
com frases, verbos, sujeitos, predicados. É extensa a correção durante a
própria escrita. Esse trabalho é insuportável numa máquina de escrever. Mas
também é insuportável ficar transcrevendo tudo o que foi feito por extenso. Sem
dúvida, trabalhar com um computador foi a salvação da lavoura, pelo menos para
mim. Digito rapidamente e consigo mudar a ordem das frases e/ou palavras sem
fazer muito esforço.
Mas mesmo assim, isso não diminui
minha admiração pelos colegas que conseguem ter ideias e escrever rapidamente. Será
que meus colegas tem um dom divino? Uma força de vontade sobrenatural? Uma
inspiração energética de impulsão a escrita?
Ou sou eu que tenho muita preguiça?
Provavelmente a segunda opção. Mas meu
apreço pela categoria é enorme. Principalmente os que escrevem para o mundo corporativo.
Porque, convenhamos, o mundo
corporativo não é pra qualquer um. Aquilo sim é uma selva onde instinto e razão
oferecem o melhor de si para um único motivo: sobreviver. Se você bobear, se
mostrar desatento, se ficar devaneando feito Bambi na floresta, você é
civilizadamente devorado.
E as ideias precisam sair rápidas,
politicamente corretas, e mesmo assim, incrivelmente criativas, (do ponto de
vista do cliente, claro). Isso é o mínimo que se espera de todos os
colaboradores, do roteirista então, é tudo isso junto ao mesmo tempo ao
quadrado.
Em um encontro com o cliente para o
qual fui convocado a ir, a vendedora, minha colega de trabalho, já foi me
adiantado no avião, "ideias bem criativas para o cliente na reunião, heim!
" Todo o peso da minha responsabilidade que eu até então não tinha me
tocado caíram em minha cabeça naquele momento. Como assim "ideias"?
Como assim "bem criativas"? E tudo no plural? E ainda, na frente do
cliente??? Pra mim já é difícil ter uma ideia, quanto mais criativa. Várias
ainda, é pedir demais.
Mas é isso é o mínimo que se espera
de um roteirista. Esse é mundo corporativo! Ideias cada vez mais
personalizadas, em um prazo mais rápido possível, por um preço cada vez menor. Perdeu morreu, ganhou,
sobrevive-se.
Nas reuniões corporativas eu
geralmente me embaralho todo com muitas ideias. Não sei quem falou o que, os
juízos de valores são diversos e a os egos e jogo de poder imperam sempre no
ar. Por isso, reunião de briefing para mim geralmente beira o caos.
Para quem não sabe, reunião de
briefing é uma das ferramentas do mundo corporativo, onde o cara que te
contrata diz o que precisa e você, como roteirista, tem a obrigação de colocar
no papel, em forma de roteiro.
Na reunião de briefing o roteirista é
aquele que não é tão importante, mas é o bicho mais esquisito. Não se vêem
muitos roteiristas por aí no mundo corporativo, (a não ser, claro, nas empresas
ligadas a comunicação), mas no restante, roteirista é um negócio raro de se achar.
Em
certa ocasião, numa reunião de uma empresa que estava contratando meus
serviços de roteirista, o diretor, apresentou-se a frente dos
"colaboradores"...
Aqui entre nós, (e que meus
contratantes não vejam), mas "Colaborador" eu acho um termo um pouco
estranho. Dá-se a impressão que você está ali querendo ajudar em alguma coisa,
quando na verdade você está ali, trabalhando oito horas por dia, cinco dias da
semana, por causa de dinheiro. Sim, dinheiro. Duvida? Então vamos ver se a
empresa que o contrata anuncia que não mais pagara seu salário. Quantas pessoas
continuariam a "colaborar" com a empresa nessa nova condição?
Pois bem, o diretor da empresa iniciou os trabalhos
atribuindo a importância de um evento que ia ser realizado e foi apresentando
os setores das empresas que estavam participando. Todos os setores tinham, pelo
menos, três pessoas. Acho que até a tia do cafézinho estava envolvida, tamanho
a importância do evento.
Na verdade, e o trabalhador por conta
própria sabe bem o que é isso, na medida em que eu fui tomando consciência do tamanho
do evento, mais baixo eu achava que tinha cobrado meus serviços.
Mas nessa reunião, que estava meio
estilo sala de aula, com o professor na frente e os alunos voltados em seu
direção, os departamentos estavam sendo apresentados e quem estava na frente
nem se dava ao trabalho de olhar para trás, (entretidos que estavam em seus
celulares e notebooks, com tarefas sempre urgentes e inadiáveis), até o momento
em que anunciaram o "roteirista".
Sempre acho que bate aquele silêncio
de filme americano quando anunciam o "roteirista" .
Sabe aquele momento em que o mocinho entra
no bar e acontece um silêncio monstruoso?
Se o roteirista for terceirizado, (o que geralmente
é o meu caso), a curiosidade aumenta ao nível de encontro com alienígena.
Pois na dita reunião, quando anunciaram
o "roteirista" e eu levantei a mão para indicar que era eu, todos deram
uma paradinha no que estavam fazendo pra ver essa peça rara.
"Então esse aí é o cara que escreve..."
"Se fosse bom não era
terceirizado."
"Como é que esse cara vive?"
"Roteirista? Uau! Que exótico. Mas deve ganhar
tão pouco. Daí eu vou ter que pagar as coisas. E se eu quiser viajar e ele não
tiver dinheiro? Eu vou sozinha ou pago pra ele? Será que ele tira férias? Será
que eu vou ter que sustentar vagabundo? Deus me livre. Vou voltar pro whats."
"Se fosse importante era diretor,
e chegava atrasado".
Que, aliás, foi exatamente o que
aconteceu naquela reunião. A diretora, uma mocinha muito jovem, oriental, pequenina,
no entanto, emanando poder, chegou escoltada
por um importante nome da empresa, em um estilo totalmente diferente do dá
maioria, (inclusive eu, que estava vestido como um arremedo de executivo e descolado, com
calça social, camisa fora de moda há uns cinco anos, sapatilha, e tudo com
marcas de terceira categoria, tipo "Surfe", "SunShine",
"Dahora").
O roteirista corporativo, geralmente,
é só um bicho esquisito..., e extremamente invejoso e amargurado, como aliás, vocês
notaram no parágrafo acima.
Minha mãe, em sua santa simplicidade
que eu amo, até hoje não entende que o ser escritor. Eu desisti de tentar
explicar. Lembro-me quando ela foi assistir a um espetáculo que tinha escrito e
dirigido. Já em casa perguntei se ela havia gostado, ela respondeu-me que não
tinha muito porque eu não tinha "aparecido".
Retruquei dizendo que justamente havia escrito e
dirigido o espetáculo, (julgando isso ser mais importante do que
"aparecer", que no caso era atuar.
- Escreveu o que?
- Escrevi a história, escrevi o que
os atores disseram.
- Não senhor. O que eles disseram
saíram da boca deles. E dirigiu o que?
-Dirigi a peça, os atores. Eu que
falava vai prá cá, vai prá lá, fala mais triste, mais alegre, (podia dizer que
essa deve ser a pior simplificação do ofício de diretor que se fez na vida, mas
como sei que não tenho capacidade, (e isso não é ironia), para ser o pior,
creio que devem existir definições bem menos elegantes e estereotipadas).
Desisti de tentar explicar pra ela.
Continuo bicho raro no mundo corporativo.
E continuo escrevendo, menos do que gostaria,
mas continuo.